O que é ansiedade e por que ela merece atenção?
Eu costumo explicar a ansiedade como uma espécie de excesso de preocupação. A própria ideia de preocupação já aponta para isso: é como se a pessoa estivesse se ocupando antecipadamente de algo que ainda não aconteceu. Essa explicação ajuda também a diferenciar ansiedade de medo: o medo costuma aparecer diante de um perigo real ou iminente, enquanto a ansiedade está muito ligada à antecipação de uma possível ameaça futura.
Quando o cérebro interpreta que alguma coisa pode representar perigo, algumas regiões envolvidas na resposta de alerta, como a amígdala, participam de uma cadeia de reações que prepara o organismo para enfrentar aquela situação ou fugir dela. O coração pode acelerar, a respiração pode mudar, os músculos ficam tensos e a atenção se volta para a possível ameaça.
Em determinadas situações, isso é completamente esperado. Imagine que você está prestes a entrar em uma entrevista importante ou percebe que há algum problema poucos minutos antes de uma apresentação: seu organismo reage, você resolve aquela situação e, depois, gradualmente volta ao estado habitual. Em um organismo equilibrado, existem mecanismos capazes de frear essa onda de estresse.
O sinal de atenção aparece quando ela não passa. A ansiedade deixa de estar restrita a um contexto específico, torna-se muito intensa ou permanece mesmo quando a pessoa poderia estar descansando.
Quais são os sintomas e sinais de alerta da ansiedade?
Os sintomas variam de acordo com cada pessoa e também com o tipo de transtorno de ansiedade. Alguns dos mais comuns são:
- preocupação excessiva ou difícil de controlar;
- sensação frequente de estar em alerta;
- dificuldade de relaxar mesmo quando existe oportunidade para isso;
- pensamentos que ficam se repetindo ou “ruminando” um problema;
- tensão muscular;
- dificuldade para dormir ou sensação de que a cabeça não desliga;
- irritabilidade;
- palpitações ou sensação de coração acelerado;
- tremores;
- boca seca;
- sudorese;
- alteração da respiração ou sensação de dificuldade para respirar.
Um dos critérios mais importantes, porém, não é apenas ter ou não ter algum desses sintomas, mas observar o impacto que eles estão causando na sua vida. Quando a ansiedade começa a interferir no trabalho, nos relacionamentos, no sono, nos hábitos ou nas atividades que a pessoa normalmente faria, vale investigar.
Também é importante não partir automaticamente do princípio de que qualquer sintoma físico é ansiedade. Palpitações, alterações importantes do sono e outros sintomas físicos podem ter outras causas médicas ou até estar relacionados ao uso de determinadas medicações ou substâncias. Por isso, uma avaliação adequada pode incluir também a investigação da saúde física do paciente antes de concluir que os sintomas são exclusivamente psiquiátricos.
Existem diferentes tipos de transtorno de ansiedade?
Sim.
“Ansiedade” é um termo muito amplo. Dentro dos transtornos de ansiedade existem diferentes quadros que têm em comum algum grau de medo ou preocupação excessivos, mas que se manifestam de maneiras diferentes. Entre eles estão:
- transtorno de ansiedade generalizada;
- transtorno de ansiedade social;
- transtorno de pânico;
- fobias específicas.
Existem ainda outros quadros muito relacionados à ansiedade, embora atualmente sejam estudados em categorias próprias dentro das classificações psiquiátricas, como o transtorno obsessivo-compulsivo e o transtorno de estresse pós-traumático.
É justamente por existirem apresentações tão diferentes que fazer um diagnóstico apenas com base em uma lista de sintomas pode ser problemático. Duas pessoas podem dizer “estou muito ansioso” e estar vivendo situações completamente diferentes.
E a crise de pânico?
A crise de pânico costuma chamar bastante atenção porque os sintomas podem surgir com intensidade muito grande. Algumas pessoas descrevem a sensação de que vão morrer, de que perderam o controle ou de que alguma coisa muito grave está acontecendo. É comum, inclusive, procurarem um pronto-socorro acreditando que estão tendo um problema cardíaco.
E isso precisa ser levado a sério.
Antes de atribuir sintomas como palpitação recorrente ou outros sintomas físicos importantes à ansiedade, é necessário avaliar se existe alguma outra condição médica envolvida. Depois que outras causas foram adequadamente investigadas, explicar ao paciente o que está acontecendo pode, por si só, ser parte importante do tratamento. Chamamos isso de psicoeducação: ajudar a pessoa a compreender seus sintomas, entender o diagnóstico e saber o que fazer quando eles surgirem.
No transtorno de pânico, existe ainda outro componente importante: depois de ter crises repetidas, a pessoa pode começar a viver tentando evitar a próxima. Ela deixa de sair sozinha, recusa convites, evita determinados lugares ou situações e, em alguns casos, chega a abrir mão de oportunidades profissionais ou pessoais por medo de ter uma nova crise.
Nesse momento, não estamos falando apenas do desconforto da ansiedade, mas de uma condição que começou a organizar a vida da pessoa ao redor do medo.
O que causa ansiedade?
Não existe uma única causa. O que entendemos hoje é que diferentes fatores podem se somar: há pessoas com maior predisposição para reagir com ansiedade, mas também existe influência das experiências que vivemos, da maneira como aprendemos a lidar com ameaças e dificuldades e do contexto em que estamos inseridos.
Entre os fatores que podem participar desse processo estão:
- predisposição genética;
- experiências da infância;
- situações traumáticas;
- formas aprendidas de responder ao medo e à preocupação;
- períodos de estresse intenso;
- privação de sono;
- dificuldades profissionais ou pessoais;
- uso excessivo de estimulantes, como cafeína;
- fatores sociais, econômicos e ambientais.
Isso ajuda a entender por que duas pessoas podem passar por situações semelhantes e reagir de maneiras completamente diferentes. Às vezes existe uma predisposição que permaneceu silenciosa durante boa parte da vida e se manifesta em um período de sobrecarga.
É como imaginar um copo: se ele já está quase cheio de estresse, noites mal dormidas, excesso de trabalho e outras dificuldades, um acontecimento adicional pode ser suficiente para fazê-lo transbordar.
Como o psiquiatra pode ajudar no tratamento da ansiedade?
O papel do psiquiatra não é simplesmente prescrever um remédio. A primeira etapa é entender o que aquela pessoa está vivendo, o que inclui avaliar quais sintomas estão presentes, há quanto tempo começaram, em quais situações aparecem e principalmente quanto estão interferindo na vida daquela pessoa. Também precisamos investigar se existem outras condições médicas ou substâncias que possam estar contribuindo para os sintomas.
A partir dessa avaliação, o tratamento é individualizado. A psicoterapia é uma intervenção muito importante nos transtornos de ansiedade e, em muitos casos, faz parte das recomendações principais de tratamento. Em determinados quadros, medicamentos também podem ser utilizados.
Quando a ansiedade está tão intensa que a pessoa não consegue mais colocar em prática os próprios recursos, dormir, trabalhar ou realizar atividades que antes eram normais, o medicamento pode ajudar a reduzir essa intensidade enquanto ela recupera gradualmente sua capacidade de funcionar. Isso também permite que intervenções aprendidas na terapia sejam utilizadas com mais facilidade.
O tratamento, portanto, não precisa ser pensado como uma escolha entre “terapia ou remédio”. Dependendo do caso, diferentes estratégias podem fazer parte do mesmo cuidado.
Remédio para ansiedade precisa ser usado para sempre?
Não necessariamente.
Essa é uma preocupação frequente de quem chega ao consultório. Existem tratamentos que podem ser utilizados por determinado período e posteriormente reavaliados; o tempo depende do diagnóstico, da intensidade dos sintomas, da evolução e do histórico de cada paciente. Também é importante diferenciar os diversos tipos de medicamentos usados em psiquiatria.
Um problema que vejo com frequência é o uso prolongado e indiscriminado de determinados ansiolíticos apenas para eliminar qualquer desconforto ou para dormir. Algumas pessoas começam a utilizá-los sem uma avaliação psiquiátrica adequada e permanecem anos tomando a mesma medicação.
Esse não é um uso banal.
Alguns desses medicamentos podem provocar dependência e estão associados a efeitos como alterações de memória, dificuldade de concentração e redução dos reflexos. Por isso, nenhum medicamento deveria ser tratado apenas como o “comprimidinho que acalma” ou como uma solução automática para dormir. É necessário entender por que ele está sendo usado, qual problema estamos tratando e se naquele momento os benefícios realmente superam os possíveis riscos.
Psicólogo ou psiquiatra: quem procurar para ansiedade?
Essa também é uma dúvida muito comum. Psicólogos e psiquiatras têm papéis diferentes e complementares no cuidado da saúde mental.
Em muitos casos, uma pessoa com excesso de preocupação e sofrimento emocional pode começar uma avaliação psicológica. Um bom profissional também saberá identificar quando existe necessidade de avaliação médica.
Por outro lado, quando existem sintomas físicos importantes, alterações graves do sono ou dúvidas sobre outras possíveis causas dos sintomas, uma avaliação médica pode ser especialmente importante.
O que eu não recomendo é ficar adiando o cuidado por não saber qual profissional procurar. Se a ansiedade está causando sofrimento ou prejuízo, procure ajuda; a partir da primeira avaliação, o profissional poderá orientar os próximos passos.
O que pode acontecer quando a ansiedade não é tratada?
Nem todo episódio de ansiedade precisa de tratamento. O problema é quando os sintomas já são persistentes e começam a determinar escolhas importantes da vida.
A pessoa pode, por exemplo, deixar de viajar por medo de avião, recusar um trabalho porque precisa sair de casa, abandonar atividades de que gostava por receio de ter uma crise ou depender cada vez mais da presença de alguém para se sentir segura. Em outros casos, passa noites acordada porque não consegue desligar os pensamentos.
Aos poucos, a vida começa a ficar menor para caber dentro da ansiedade. Além disso, períodos prolongados de sofrimento e estresse podem estar associados a outros problemas de saúde mental, inclusive quadros depressivos. Por isso, eu considero o prejuízo funcional um dos sinais mais importantes de que chegou a hora de procurar ajuda.
É possível prevenir a ansiedade?
Nem sempre é possível impedir que um transtorno aconteça, principalmente porque existem fatores que não controlamos. Mas podemos reduzir parte da sobrecarga sobre o organismo. Se imaginarmos novamente o copo prestes a transbordar, cuidar da rotina significa tentar manter algum espaço dentro dele.
Na prática, isso passa por coisas aparentemente simples:
- dormir adequadamente;
- manter horários minimamente regulares;
- ter períodos reais de descanso;
- evitar excesso de cafeína, álcool e outras substâncias;
- cuidar da alimentação;
- cultivar bons relacionamentos;
- aprender a reconhecer e lidar melhor com as próprias emoções.
Pode parecer básico, mas fazer o básico de maneira consistente protege a saúde de inúmeras formas.
Se você já percebe que sempre foi uma pessoa que se preocupa excessivamente, que tem dificuldade de relaxar ou sente que a ansiedade está começando a ocupar cada vez mais espaço, não precisa esperar o quadro se tornar incapacitante para procurar ajuda.
Quando procurar ajuda para ansiedade?
Eu usaria uma pergunta simples: a ansiedade está me ajudando a reagir a uma situação ou está começando a comandar a minha vida?
Se a preocupação não passa, se você não consegue descansar mesmo quando poderia, se o sono está prejudicado, se aparecem sintomas físicos recorrentes ou se você começou a evitar situações importantes por causa da ansiedade, uma avaliação profissional já pode fazer sentido.
O objetivo do tratamento não é fazer alguém nunca mais sentir ansiedade, porque ela faz parte da experiência humana. O objetivo é impedir que cresça a ponto de ocupar o espaço que deveria ser da sua vida.
Se você se identificou com algumas das situações deste texto e percebe que a ansiedade tem trazido prejuízo para a sua rotina, uma avaliação individual pode ajudar a entender o que está acontecendo e quais estratégias fazem sentido para o seu caso.